quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Estaremos perto de uma nova Idade do Gelo?

Idade do Gelo ou Era Glacial é a designação dada ao período em que a Terra se encontra com uma atmosfera excessivamente húmida e quando tem os seus ajuntamentos de água bastante ampliados, mantendo assim uma temperatura muito baixa, diminuindo o nível dos oceanos e gerando condições de vida bastante inóspitas.
As glaciações são fenómenos climáticos que ocorrem dentro de uma era glacial, constituindo um período de frio intenso. A temperatura média da Terra diminui, provocando o congelamento de água nos pólos, aumentando assim a quantidade de gelo nas calotas polares, o que leva ao aumento dos glaciares nos pólos; em zonas montanhosas, próximas de regiões de neve perpétua, a quantidade de gelo também aumenta. Actualmente os glaciares ocupam 10% da área total do planeta, mas nos períodos glaciais o gelo cobria cerca de 32% de terra e 30% dos oceanos. As glaciações provocam grandes mudanças no relevo continental e no nível do mar.

As evidências para o conhecimento das mudanças climáticas da Terra estão gravadas nas profundezas dos oceanos e nas calotas polares. Os sedimentos marinhos revelam quanto gelo existia na Terra e fornecem pistas para as alterações da temperatura no passado. O gelo existente nos pólos também fornece alguma informação sobre as temperaturas. Uma das teorias apresentadas por cientistas sobre o funcionamento do clima terrestre é um desvio na órbita da Terra. Através do estudo das rochas e terra deixada a descoberto pelo retrocesso de um glaciar, os cientistas descobriram que a Terra passou, pelo menos, por três ou quatro idades do gelo. Ao repararem que o gelo tinha um movimento cíclico de avanço e retrocesso começaram a suspeitar que este facto estava relacionado com variações na órbita terrestre. Estas variações dão-se através dos movimentos de excentricidade, de obliquidade e de precessão. Estas pequenas variações na geometria da órbita terrestre afectam a quantidade de luz solar que cada hemisfério recebe ao longo do movimento da Terra em torno do Sol. Uma inclinação menor do eixo terrestre significa menor diferença da temperatura das estações do ano; maior inclinação significa maior diferença, ou seja, Invernos mais frios e Verões mais quentes.
Milankovitch, matemático sérvio, calculou a quantidade de luz recebida por cada secção de latitude do planeta em cada fase das variações orbitais da Terra. Concluiu que as idades do gelo surgem quando uma pequena parte do Hemisfério Norte, correspondente à latitude a que se encontram a baía de Hudson e o norte da Europa, recebe menos luz solar no Verão. Isto traduz-se em Verões curtos e frios que não conseguem derreter toda a neve acumulada durante o Inverno e que é suposta derreter. Esta neve acumula-se lentamente ano após ano e a cada vez mais extensa superfície branca reflecte a radiação de volta para o espaço. As temperaturas descem cada vez mais e eventualmente estão criadas as condições para uma nova era glacial. Baseado nos seus cálculos, Milankovitch previu que existiriam eras glaciais a cada 100 000 anos.
A idade precisa de cada uma das eras glaciais foi comprovada por uma série de fósseis de um recife de coral que se formou num oceano pouco profundo ao largo do Pacífico Sul durante os períodos quentes interglaciais. À medida que o clima se alterou e o frio tomou conta do planeta, mais e mais água congelava nos pólos, o nível dos oceanos baixou de modo a expor o recife de coral. Quando o gelo derreteu, o oceano aqueceu e outro recife cresceu. Isto repetiu-se à medida que se sucediam as eras glaciares. Com o avanço da tecnologia foi possível, através da datação do urânio presente no coral, determinar com exactidão a idade do mesmo e saber a localização temporal das idades do gelo. Os intervalos encontrados coincidiam com os propostos pela teoria de Milankovitch.

Segundo investigações, o fim do período de uma era glacial é dado pela mudança da humidade atmosférica, que diminui, gerando assim uma maior acumulação nos oceanos e originando o aquecimento a nível global. Entre as eras glaciais existem os períodos interglaciais em que a temperatura da Terra se eleva. O período em que vivemos nada mais é do que um interglacial. No entanto, encontramo-nos em vésperas de uma nova era glacial, já que o fim deste período interglacial, baseado nos cálculos das anteriores eras do gelo e na duração dos períodos interglaciares, se encontra próximo. Em média, a Terra experimenta 10 000 anos de era quente a cada 90 000 anos de era de gelo. A última era glacial terminou há cerca de 12 000 anos. A Terra tem experimentado no último século um período de aquecimento – muito provavelmente devido à acção humana com actividades que provocam o aumento da emissão de gases de efeito de estufa - quando, a esta altura, já deveria estar a iniciar a sua fase de esfriamento para entrar numa nova era glacial. Alguns climatólogos defendem que a temperatura média da Terra já deveria ser nesta altura 5ºC mais baixa.

Os períodos glaciais são antecedidos por grande pluviosidade e por curtos períodos bruscos de intenso aquecimento, acompanhados por alterações climáticas regionais notáveis e fenómenos meteorológicos extremos. Além dos cálculos de eras atrás referidos, outros dados parecem apontar para um eminente início de uma nova idade do gelo: a precipitação a nível global está a aumentar, o gelo encontra-se a aumentar em algumas regiões, a temperatura do mar encontra-se a diminuir e a Corrente do Golfo a enfraquecer, aquecimento e arrefecimento da Terra, fenómenos meteorológicos extremos em diversas regiões e diminuta actividade solar nos últimos anos.

Pode parecer desconcertante, face ao tão falado aquecimento global, mas a temperatura média da Terra tem diminuído lentamente durante a última década. O que está provado pelos climatologistas é que só houve um aquecimento entre 1974 e 1998. Todas as quatro agências que rastreiam a temperatura da Terra relatam que ela arrefeceu rapidamente em 2007: cerca de 0,8ºC. Se a temperatura não recuperar em breve, teremos de concluir que o aquecimento global está ultrapassado. Falta então saber se estamos perante uma pausa no aquecimento, ou se iremos continuar a descer nos próximos anos.
Quando se fala em aquecimento global, não quer dizer que este se dê em todos os lados e em todos os locais. Assim, o aquecimento existe mais a nível regional. Só partes da Ásia e Estados Unidos é que estão a aquecer, todo o resto do planeta está a arrefecer, essencialmente o Hemisfério Sul – este arrefecimento é relevante nos trópicos, pois é suposto que seja na atmosfera dos trópicos que fará mais calor devido ao aquecimento global antropogénico. As temperaturas do Hemisfério Norte mostram também uma tendência para estacionar ou mesmo descer. De tal modo que a temperatura média global apresenta uma ligeira tendência para continuar a descer. Ou seja, já não é apenas o Hemisfério Sul que contribui para a descida da temperatura média global.
As distribuições de temperaturas devem-se bastante a temperaturas das correntes oceânicas, como a Oscilação do Atlântico Norte (NAO). Houve uma predominância da fase positiva ou quente da NAO nos últimos 20 anos. Esta está a alterar a sua acção para uma fase negativa, característica de tempos mais frios. Há também a Oscilação Decadal do Pacífico, de baixa frequência, que acontece de 10 em 10 anos. Segundo alguns climatologistas, o clima global é também muito condicionado por esta oscilação na temperatura das águas do Pacífico. Esta oscilação está a caminhar para a sua fase negativa, ou fria, provocando Invernos cada vez mais rigorosos no Hemisfério Norte.
Actualmente, temos outro fenómeno a provocar anomalias climáticas em várias regiões da Terra, o La Niña (o oposto do famoso El Niño). Quando há um El Niño há um aquecimento global da troposfera. Acredita-se que foi devido ao La Niña que o último Verão foi fresco e chuvoso, por exemplo.

Ao contrário do que se pode pensar, e segundo alguns cientistas, a quantidade de gelo existente no planeta tem vindo a aumentar nas últimas décadas. De acordo com medições feitas por satélites, os lençóis de gelo de certas regiões da Gronelândia têm vindo a ganhar 6,4 cm por ano na sua espessura. Há quem defenda que este aumento é, por enquanto, uma recuperação do gelo perdido nos últimos anos devido ao aquecimento global, não constituindo assim, ainda, um aumento significativo.

O aquecimento a que a Terra tem sido sujeita talvez esteja a retardar o aparecimento do início de uma era glacial. O aumento de temperatura registado deve-se à elevada concentração de radiação solar na atmosfera terrestre provocada em grande parte pelo aumento do efeito de estufa. A energia adquirida espalha-se pelo globo aquecendo não só os oceanos, como também a atmosfera, contribuindo para o degelo dos glaciares, para a evaporação da água numas regiões (como a dos trópicos) e para a precipitação noutras. A questão fulcral reside no facto de que estas alterações vão influenciar aspectos como o movimento das massas de água dos oceanos. Com o aquecimento, está-se a perder a água das regiões equatoriais e a enviá-la para o Oceano Atlântico a latitudes mais elevadas. Esta nova massa de água altera as correntes existentes no Atlântico Norte provocando alterações na temperatura média da água, que tem vindo a diminuir consideravelmente. O Atlântico Norte é dominado pela Corrente do Golfo, uma massa de água quente que provém dos trópicos. A cerca de 40º Norte, à latitude de Portugal e Nova Iorque, a corrente divide-se. Uma pequena parte move-se para Sul produzindo uma corrente superficial, enquanto que a restante segue para Norte originando os ventos quentes que fazem subir as temperaturas da Europa. No entanto, ao inundar-se o oceano com uma nova massa de água que cai do céu, estamos a diluir estas correntes que nos aqueciam.
Ao comparar-se os dados actuais com outros estudos efectuados em 1957, 1981 e 1992, pode-se concluir que a quantidade de água quente que fluía para Norte teve uma diminuição de 30%. Esta diminuição é considerável e leva a que o Atlântico Norte seja mais frio e que a região compreendida entre a Baía de Hudson e a Europa do Norte sofra também com Invernos mais rigorosos. Podemos concluir que o aquecimento global pode contribuir para a diminuição da temperatura no Atlântico Norte. As correntes do Atlântico Norte são essenciais para a manutenção do equilíbrio climatérico do planeta. Se elas deixarem de existir podemos contar com uma diminuição súbita da temperatura. Se isto acontecer, nas próximas décadas teremos Invernos mais frios e severos no Hemisfério Norte.

Alguns investigadores defendem que a actividade solar nos últimos 20 anos não aumentou de forma significativa e que tem perdido força. Nos últimos anos têm sido observadas poucas manchas no Sol (o que não deixa de ser natural, pois estávamos a atravessar uma fase descendente do ciclo solar, a caminho do seu mínimo) e desde que a intensidade do vento solar começou a ser monitorizada, há cerca de 50 anos, ela nunca se encontrou tão baixa como em 2008. O vento solar é responsável por criar uma bolha chamada helioesfera, que envolve e protege o Sistema Solar dos raios cósmicos de alta energia provenientes do resto do Universo. Com o vento solar menos intenso, a bolha encolhe-se e fica mais fina, facilitando a passagem dos raios cósmicos. Em princípio, estamos a salvo na Terra, pois o nosso campo magnético e a nossa atmosfera protegem-nos. Existe um estudo que liga a quantidade de raios cósmicos à quantidade de nuvens na Terra. Segundo o mesmo, o bombardeio de raios cósmicos na nossa atmosfera favorece a criação de nuvens. Se a helioesfera enfraquecer, haverá um aumento de raios cósmicos e aumento de nuvens. Aumentar a capa de nuvens significa bloquear a quantidade de raios solares que penetram a atmosfera. O topo das nuvens acaba por refletir a luz do Sol de volta ao espaço e, como consequência, a Terra esfriaria. A hipótese é um tanto controversa, mas entre 1645 e 1715, aproximadamente, o número de manchas solares registado foi praticamente nulo e o período ficou conhecido como Mínimo de Maunder. Nesse mesmo período a Europa sofreu com temperaturas muito baixas e rios que normalmente são fluidos o ano inteiro congelaram durante muito tempo (como o Tamisa, em Inglaterra). O Mínimo de Maunder situou-se num período conhecido como Pequena Idade do Gelo da Europa.
O rápido declínio da temperatura em 2007 coincidiu com um mínimo solar um pouco mais prolongado (e com poucas manchas solares) e com a consequente demora do ciclo 24 em começar no tempo previsto. Tal não é prova de uma conexão causal mas revelou-se motivo de preocupação para alguns cientistas. A energia do Sol conduz o clima e a meteorologia na Terra. Hathaway concorda que as flutuações na actividade solar relacionadas com as manchas solares influenciam o clima da Terra, como o exemplo do Mínimo de Maunder. No entanto, apesar de ser o principal factor, o Sol não é o único que influencia o nosso clima: erupções vulcânicas, fenómenos como o El Niño ou a El Niña, correntes oceânicas, movimento de precessão, a acumulação de gases de estufa na atmosfera, entre outros. Daí não ser muito provável, para este investigador, que esta fase de mínimo solar leve a uma pequena idade do gelo. Até porque o ciclo 24 já começou a produzir manchas. Resta saber o que acontecerá quando regressarmos ao máximo solar, a pausa no aquecimento terrestre continuará?

Talvez seja um bocado prematuro falar de aquecimento ou arrefecimento global, pois o período de tempo para avaliar tal necessita ser muito mais alargado. No entanto, as opiniões existem e apesar das diferenças das mesmas entre investigadores, a que parece prevalecer é a de que "Estamos a aquecer para congelar”. Tal coloca-nos num período de pré-arrefecimento, que os próximos anos confirmarão ou não. Mesmo que não seja para já, uma nova idade do gelo nos aguarda e assim, a questão que aparentemente se pode colocar é: quando é que a Terra irá reentrar em força numa nova era glacial?


1 comentário:

Anónimo disse...

Acredito sim no aquecimento global, embora alguns achem que não passa de uma farsa.

Rodrigo Cézar Limeira